São Cristóvão celebra Dia da Luta Antimanicomial garantindo atendimento completo aos pacientes com transtornos mentais

28/05/2020 - 14:49 Atualizado há 17 horas



Em 18 de Maio celebra-se o Dia da Luta Antimanicomial. A data serve para enfatizar a importância de se tratar pessoas com transtornos mentais de maneira a garantir o direito ao tratamento, a liberdade, sempre promovendo o convívio em sociedade, anulando os estigmas sociais relacionados à doença. Em São Cristóvão, os avanços na área são inúmeros, desde a reimplantação e reestruturação dos dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) até o trabalho domiciliar, acompanhando inclusive as famílias dos pacientes. Em decorrência da pandemia de covid-19, este ano a Secretaria Municipal de Saúde não irá realizar a programação que celebra os avanços da saúde mental do município, porém, a Prefeitura de São Cristóvão revez todo o atendimento aos pacientes, garantindo a assistência à saúde.

Arte dos usuários do CAPS

 

Através de atendimentos com psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e técnicos de enfermagem, profissionais de educação física além do corpo administrativo, os mais de 800 pacientes estão recebendo acompanhamento em suas residências, e em casos mais necessitados, presencialmente, respeitando horários de atendimento e também o distanciamento social. Tanto o CAPS João Bebe-Água (localizado no bairro Rosa Elze e que atende toda a região) quanto o CAPS Walter Correia (no Alto da Divinéia, e que atende o Centro Histórico) estão funcionando das 7h às 17h.

Andrea Evangelista Mota

 

“Estamos evitando o aglomerado de pessoas aqui na unidade, uma vez que os pacientes (casos urgentes) passam aqui, sempre com hora programada, para atendimento individual. Estamos também realizando visitas domiciliares. Nosso trabalho versa em acompanhar se os pacientes estão tomando a medicação, e quando os remédios estão acabando eles passam aqui para pegar a receita e retiram a medicação na farmácia da Unidade de Saúde Maria Figueroa, no bairro Eduardo Gomes”, explicou a gerente da do CAPS João Bebe-Água, Andrea Evangelista Mota.

 

 

Segundo Andrea, neste momento de pandemia, o crescente número de pessoas apresentando ansiedade também vem sendo monitorado e acompanhado pelos profissionais da saúde mental. “Temos percebido um aumento na procura dos nossos serviços, são pessoas que antes não eram atendidas aqui, mas estão ansiosas pela situação do covid-19 e também recebem nossa atenção especial”, completou.

 


Para a gerente do CAPS Walter Correia, Edjane Mendes da Silva, a situação da saúde mental hoje requer dos trabalhadores um contraponto diante de um Governo Federal que quer impor uma orientação conservadora. “Nós que fazemos a saúde mental lutamos pela Reforma Psiquiátrica e a consolidação do tratamento em liberdade. Sim aos CAPS e não às Comunidades Terapêuticas. Estamos numa posição de resistência, não nos restringimos a uma transformação limitada, mas ressaltamos o princípio da construção de um novo local social para a loucura, onde o portador de transtornos mentais seja protagonista”, disse.

 

 

Edjane enfatizou que em São Cristóvão, a saúde mental avançou primeiro com a construção de novas concepções sobre a loucura e o sofrimento mental, neste sentindo reformando , estruturando e aparelhando os equipamentos de saúde como os CAPS e os ambulatórios de saúde mental, com insumos e com profissionais. “Avançamos com o fortalecimento da rede de inter e intrassetorial, onde destaco a educação permanente para os trabalhadores, a criação de projetos como a Banda CAPS, a criação do protocolo e execução do "Dia do Cuidador". Comemoramos a ampliação dos atendimentos, as atividades em parceria com a UFS, nossos trabalhos nas áreas da arte e cultura. Nossa resistência e luta pelo SUS é uma constante”, pontuou a gerente do Walter Correia.

Maria José Andrade Correia

 

Edjane informou que o CAPS Walter Correia vem atendendo da mesma maneira que o CAPS João Bebe-Água. “Realizamos atendimentos presenciais individuais. Temos alguns usuários que não podem ficar sem o atendimento, claro com o distanciamento seguro. As atividades coletivas e grupais foram suspensas. Criamos um grupo informativo de usuários e familiares emocional via WhatsApp, para orientação e precauções durante a pandemia. A saúde mental tem um grupo de apoio psicológico para a população e trabalhadores. Pensamos e ofertamos máscaras para os que são mais vulneráveis. Criamos um protocolo interno de atendimento para a população. Mantivemos a reunião de equipe semanal. E destaco a continuidade dos matriciamentos com as UBS e pontos de urgência e emergência. Continuamos com as atividades internas sempre seguindo as normas , protocolo e orientações da CMSM, da SMS e da OMS”, explicou Edjane.

 


Novas realidades

 

 

As mudanças na Saúde Mental de São Cristóvão são diretamente vividas pelos usuários, que passaram a ter verdadeiramente um acompanhamento de seus casos clínicos. Para Maria José Andrade Correia, que desde os 14 anos recebe atendimento psiquiátrico, a forma atual de tratamento é a mais próxima da almejada pelos pacientes. “Passei por vários locais de atendimento, já levei eletrochoque, já fiquei internada, já me deram injeções que quase tiraram minha vida, e nada resolvia porque não era a forma correta de tratamento. Hoje, com a forma do CAPS nos receber vejo grandes mudanças em minha saúde, aqui sou bem tratada pela equipe, todos gostam de mim. O tratamento é com respeito, fazemos atividades. Esta forma de tratamento era o que eu pedia lá no passado, quando estava internada em clinicas psiquiátricas. Aquilo era uma prisão, não dava resultados. Eu era agredida diariamente fisicamente, e nada dava jeito em minha saúde. Agora sim eu vejo melhoras, voltei até a cozinhar que era algo que eu gostava mas que por conta dos outros tratamentos eu ficava impedida”, relatou a usuária.

José dos Passos Santos

 

Fazendo um paralelo com a situação de isolamento social, vivida por todos os brasileiros nas últimas semanas, José dos Passos Santos, atendido no CAPS João Bebe-Água relembrou o período em que ficou internado. “Estamos todos enfrentando esse isolamento domiciliar, eu que já vivi isolado sem ter contato com meus familiares sei o quanto é ruim ficar preso num lugar, mas precisamos confiar que vamos todos passar por isso logo. O CAPS veio para nos ajudar a melhor, pois a liberdade cura, pois o direito de ir e vir faz bem. Que fiquemos todos em casa para logo-logo possamos estar todos juntos”, frisou.

 


Dia da Luta Antimanicomial

 

 

A coordenadora da rede de Atenção Psicossocial de São Cristóvão, Stefanie Silva Vieira, explica que o Dia da Luta Antimanicomial reforça a importância do processo histórico da Reforma Psiquiátrica Brasileira e faz pensar sobre a reorganização dos cuidados no modelo de atenção à saúde mental, que por muitos anos as pessoas em sofrimento psíquico sofreram violação de direitos, estigmas e preconceito.

 

“No nosso município, tivemos um avanço significativo em toda Rede de Atenção Psicossocial, no que diz respeito ao conjunto de estratégias através do novo acesso e na oferta de cuidados. Buscamos realizar a integração e articulação efetiva nos diversos pontos da rede, desde a Atenção Primária em Saúde até a reabilitação psicossocial, garantindo desta forma, o acesso e a qualidade dos serviços ofertando cuidado integral e assistência multiprofissional, sob a lógica interdisciplinar com atenção humanizada. Atualmente, percebemos as mudanças significativas nas rotinas dos usuários e familiares, através das ações que fortalecem o protagonismo dos usuários. Ficamos muito felizes com toda transformação no cuidado em saúde mental, estamos vendo os usuários dos CAPS do nosso município ocupando diversos espaços, lutando pelos seus direitos, cada vez mais empoderados”, frisou a coordenadora.

 

Sobre os cuidados dos cidadãos sancristovenses, na atual conjuntura social, Stefanie Silva Vieira informou que vem sendo empregada uma nova modelagem de cuidados em saúde mental, com diferentes medidas de proteção, não apenas para os usuários dos CAPS, mas para toda a população diante desta situação da pandemia.

 

 

“Estamos ofertando um serviço de Plantão Psicológico para que as pessoas possam ter um espaço de escuta e acolhimento, durante todo este período. Os desafios em saúde mental, a partir desta pandemia, são inúmeros. A população tem sofrido bastante por conta das incertezas deste momento. No entanto, estamos trabalhando diariamente para ofertar os melhores serviços nos pontos da Rede de Atenção Psicossocial, buscando reduzir os danos provocados por este momento”, concluiu.

 

Plantão

O Plantão Psicológico de Teleatendimento funciona de segunda a quinta, das 8h às 12 e das 13h às 16h, pelo telefone (79) 9 9842-6847 – por meio do WhatsApp.

Fotos: Heitor Xavier.