VivaCidade: a relação de fé ao Senhor dos Passos e o Museu dos Ex-Votos

08/03/2022 - 17:00 Atualizado há 11 horas



Na semana que marca as celebrações para o Nosso Senhor dos Passos, a série de reportagens “VivaCidade” contará um pouco sobre a história de um dos museus de São Cristóvão que reúne símbolos da devoção dos fiéis de vários locais do país: o Museu dos Ex-Votos, santuário presente na Igreja da Ordem Terceira do Carmo. A história do Museu começa antes mesmo da sua fundação, há 300 anos, na antiga São Cristóvão de Sergipe Del Rey, quando pescadores encontraram a imagem do Senhor dos Passos em um caixote de madeira nas águas do rio Paramopama.

 

À época, a imagem foi transportada para igreja do Carmo, local que permanece até hoje. A partir disto, surgiu a devoção popular a esse santo, originando a Festa de Passos. Neste sentido, também originou-se a tradição em que as pessoas portavam imagens de partes do corpo que desejavam ser curadas como uma promessa ao Senhor dos Passos, que ao serem cumpridas, se tornaram ex-votos. “Cada peça é única pois representa um milagre que foi alcançado. As pessoas que tiveram esses pilares alcançados trouxeram essas imagens e a partir disso, nós temos esse museu aqui nessa Igreja”, comentou o Frei João Marcos Leal Silva Lima.

 

 

Segundo o Frei, inicialmente as peças eram levadas como piedade particular. Com uma grande quantidade acumulada, surgiu o propósito de fazer um santuário que refletisse à fé ao Senhor dos Passos e assim, foi organizado o Museu dos Ex-Votos em 1990. Em um primeiro momento, o santuário existia num claustro menor, mas por questões de segurança acabou sendo movido para o espaço que está hoje, na Igreja do Carmo, Centro Histórico de São Cristóvão.

 

 

“Nessa mudança, nem todas as peças puderam ser expostas novamente porque o ambiente não é muito grande e depois de um tempo, certas peças vão se deteriorando e não podemos jogar fora, pois sabemos que elas possuem um significado especial para a pessoa. Então, quando a imagem não pode mais ser exposta ou guardada, nós temos que fazer algo que não fira a pessoa”, declara João.

 

Acervo de fé

 

Ao entrar no Museu, o turista se depara com um grande acervo formado por fotografias, objetos, imagens, entre outros. O seu teto se destaca pela quantidade de réplicas de partes do corpo humano como braços, pernas, mão, e cabeças, referenciando às graças alcançadas. Cada parte do local representa uma história, uma ligação da fé dos fiéis ao Senhor dos Passos.

 

 

 

 

Um destes fiéis é o próprio Frei João Marcos, que possui uma fotografia exposta no acervo do Museu. Ele detalhou de onde veio essa sua relação de fé com o Senhor dos Passos. “Quando eu tinha pouco mais de um ano tive meningite, então minha família fez uma promessa à Senhor dos Passos e acabei curado sem nenhuma sequela. Após isso eles cumpriram a promessa e eu vim aqui de roxo depois. Quem também faz parte deste acervo são meu pai e tio, que são gêmeos, e devido à gravidez de risco da minha avó, ela fez a promessa, além de outros da minha família”, explicou.

 

Frei João Marcos Leal Silva Lima

 

Festa dos Passos

 

A utilização de vestes roxas citada pelo Frei é uma das tradições que fazem parte da Romaria da Festa de Senhor dos Passos, comemorada no mês de março. No período da celebração, os devotos vêm vestidos de roupas roxas para pagar suas promessas, alguns descalços, outros ajoelhados, de várias cidades. O Frei conta que a tradição é que o devoto lance as vestes na imagem dos Passos, mas por questão de segurança eles optam atualmente por colocar aos pés dos santos.

 

“Durante a procissão, eles vêm para o museu e passam por debaixo das imagens em formato de cruz. Essa tradição é bem conhecida por aqui em São Cristóvão e no Brasil, e que também vem de Portugal”, comenta o Frei João Marcos Leal Silva Lima.

 

Além disso, o Museu é sempre aberto para as pessoas trazerem novas peças. Na Romaria do Senhor dos Passos é comum serem colocados bancos e espaços para que os fiéis possam depositar suas réplicas e imagens.

 

 

Quem também possui forte ligação com o Cristo é a devota Placida Maria Bastos, de 85 anos. Ela conta que assistia à procissão de Romaria desde a sua infância, em que a multidão saia do Carmo Menor e seguia até a Praça da Matriz. Durante a festividade, as músicas eram tradição do evento, com milhares de devotos que caminhavam para receber a imagem do Senhor dos Passos. No dia seguinte o percurso mudava, em que a imagem passava pela antiga Prefeitura até chegar na Praça São Francisco.

 

“Eu me lembro até hoje da aglomeração que era feita para ouvir a mensagem de sermão do Padre, do canto da Verônica, era uma grande emoção com aquela devoção e piedade. A Romaria é de uma religiosidade muito bonita, o povo demonstra a sua fé através da devoção, ficando de joelhos, alguns usando vestes roxas, toda a pagação de promessas”, comentou a cristã.

 

“Para mim o Senhor dos Passos é o Cristo vivo, ele representa o sofrimento de Jesus, a sua queda com a cruz nas costas. Nós veneramos a imagem real do nosso Senhor. Eu já fiz muitas promessas a ele e tive minha graça alcançada”, concluiu.

 

devota de Senhor dos Passos, Placida Maria Bastos

 

Neste ano, por conta da pandemia da Covid-19, a Festa de Passos será realizada de maneira restrita. As imagens não sairão da igreja do Carmo, nem em procissão nem em carreata. O município também não receberá os comerciantes. As missas dos dias 12 e 13 serão todas na Igreja do Carmo e serão transmitidas pelas redes sociais da Paróquia Nossa Senhora da Vitória.

 

Funcionamento

 

O Museu dos Ex-Votos funciona de terça-feira a sábado a partir das 9h da manhã.

 

Fotos: Dani Santos e Heitor Xavier