Povos de terreiro recebem oficina de Empreendedorismo e Comunicação Digital

21/02/2022 - 16:33 Atualizado há 3 dias



A Prefeitura de São Cristóvão, através da Fundação Municipal de Cultura e Turismo de São Cristóvão (Fumctur) promoveu, no último sábado (19), no Ilê Axé Alaroke, na Rodovia João Bebe Água, uma Oficina de Empreendedorismo e Comunicação Digital para Pessoas de Terreiro. Com recursos da Lei Aldir Blanc, a iniciativa reuniu adeptos de religiões de matriz africana, com o objetivo de incentivar ações empreendedoras que enaltecem a cultura e tradição dessas comunidades.

 

A forte presença das religiões de matrizes africanas na cidade de São Cristóvão, até então com 60 terreiros mapeados pelo Iphan e Prefeitura, foi fato significativo para a realização da oficina. Segundo a diretora de cultura e arte da Fumctur, Elma Santos, “a iniciativa foi de extrema importância não apenas para a qualificação do público de terreiro no universo da comunicação digital, mas para auxiliar na disseminação dos negócios, direcionados ou não para a religião e assim ampliar as oportunidades de emprego e renda”, destaca.

 

Elma Santos, diretora de cultura e arte da Fumctur 

 

A oficina teve duração de quatro horas e os participantes receberam capacitação voltada às noções teóricas e práticas sobre empreendedorismo e comunicação estratégica, com ênfase em marketing e no bom uso das ferramentas digitais para a realização de propaganda e venda. De acordo com uma das facilitadoras da oficina, a jornalista e candomblecista Danielle Azevedo, “pessoas de terreiro sempre encontraram no comércio uma via de sobrevivência e realização, por meio do compartilhamento de saberes acumulados em suas práticas religiosas, trazendo, em sua manufatura, a experiência deste modo de vida”, enfatiza.

 

Danielle Azevedo, jornalista e facilitadora da oficina

 

A abertura da oficina foi realizada pela facilitadora Flávia Brandão, que mostrou a diferença entre o comércio capitalista e o comércio praticado pelos povos de terreiro, o que ela chama de “Comércio de Exu”, que tem um aspecto mais comunitário, voltado mais às trocas e com outro viés a respeito da acumulação de riquezas. “Estamos mostrando, primeiramente, que é preciso haver uma comunicação com propósito. Depois tratamos de marketing, orientando os participantes da oficina a identificar seu tipo de mercado, seu cliente e a proposta da qualidade de valor”, diz a jornalista.

 

Flávia Brandão, jornalista e uma das facilitadoras da oficina

 

Assim como Danielle Azevedo, os demais facilitadores da oficina, os jornalistas e candomblecistas Flávia Brandão e Pábulo Henrique, concordam que as orientações ministradas foram importantes para estimular o empreendedorismo qualificado desse público, uma vez que, com os avanços da internet e a forte influência dos canais de comunicação, ter conhecimento das ferramentas digitais é imprescindível para o sucesso de qualquer iniciativa voltada à divulgação do próprio negócio.

 

“Mesmo que seja complicado compreender o funcionamento do algoritmo das redes sociais, os empreendedores precisam estar por dentro das novidades e entender como isso influencia os hábitos de consumo. Muitas pessoas de terreiro são artistas ou possuem negócios no ramo de culinária, costura, artesanatos etc e não conseguem bons resultados nas redes porque estão divulgando errado seu trabalho”, explica Pábulo.

 

Pábulo Henrique, jornalista e um dos facilitadores do evento

 

Segundo Danielle Azevedo, as comunidades de terreiro são espaços que vão além da salvaguarda da cultura de matriz africana, pois são compostos por pessoas que desenvolvem diversas iniciativas, inclusive empreendedoras. “A ideia é qualificar o povo de axé que faz parte da cadeia produtiva da cultura e que teve que se readaptar diante dos desafios trazidos pela pandemia de covid-19. As orientações que estamos dando aqui poderão ajudar ainda na geração de trabalho e renda. Os participantes sairão daqui com sugestões de como empreender nas redes sociais, sendo atualizados sobre as tendências de criação de conteúdo que cause impacto, sem perder de vista a lógica de comunidade”, salienta.

 

A oficina atraiu candomblecistas de diversos terreiros de São Cristóvão

 

Empreendedorismo e oportunidades

 

A fisioterapeuta e artesã Valéria Barreto é candomblecista de outra casa, em São Cristóvão, e foi atraída à oficina pelo desejo de aprofundar o conhecimento no uso das plataformas digitais, no tocante à produção de um conteúdo mais atrativo e técnicas de engajamento para expandir a religião e a sua marca . “Eu acredito que as pessoas do axé precisam disseminar mais a sua cultura, para quebrar o tabu e o preconceito que existe com as religiões de matrizes africanas. Um e vento como esse, que junta pessoas de terreiro com o mesmo propósito, é primordial para que possamos divulgar o nosso trabalho e apresentar aos demais a nossa religião. Saber utilizar a ferramenta para esta finalidade é encorajador”, explica.

 

Valéria Barreto, fisioterapeuta, artesã e candomblecista da Abassá Ilê Axé Pilão de Oxaguian, em São Cristóvão

 

Walter Raimon França Souza atua como marceneiro e fala sobre a sua percepção acerca dos ensinamentos apresentados na oficina. “O meu trabalho não é especificamente voltado para a religião, pois abrange um público maior, mas o conteúdo é relevante por ajudar a desenvolver práticas empreendedoras nesse público específico, além de paralelamente nos capacitar para que apresentemos um melhor resultado. Esse evento realmente vai me ajudar a ampliar os horizontes e ter o reconhecimento que eu preciso”, afirma.  

 

Walter Raimon França Souza, marceneiro e cancomblecista da Ilê Axé Opô Oxogun Ladê, em São Cristóvão

 

 

 

Fotos: Heitor Xavier